Depois de algum tempo, foi à cozinha ver se o jantar estava pronto.
As salsichas pareciam suculentas e douradas.
- Eis uma típica torta de salsicha britânica! - ela anunciou colocando o prato à frente dele.
- Santa Madonna - ele disse sem acreditar.
- E também borbulha e chia - ela acrescentou, indicando a tigela com batatas fritas, repolho e cebola picada.
Os olhos dele se animaram.
- Acho que você está me fisgando, caríssima.
- Não mesmo. - Ela fez uma pausa. - Não é a comida requintada à qual você está tão acostumado, signore.
Ele serviu-se de uma porção substancial.
- Não tenho reclamações a fazer, signora.
Foi o momento mais educado que passaram juntos. Durante a maior parte do tempo falaram sobre comida, sobre o que gostavam e o que não gostavam e as piores e melhores comidas que já haviam experimentado.
- Só temos fruta fresca para sobremesa. - Ela começou a juntar a louça usada. - E não muitas opções. Maçã ou maçã.
Ele fingiu pensar.
-Acho que prefiro maçã.
Ele a seguiu até a cozinha com os pratos sujos, e quando Vane estava colocando os talheres na pia, olhou pela janela e deu um grito agudo.
- Posso ver uma luz. - Ela apontou. - Várias luzes, lá embaixo. Aleluia, acho que a luz voltou. Tente o interruptor.
- Tenho de fazer isso? Luz de velas é muito mais suave, bella mia. Tem mais clima.
- Mas eu não quero cansar mais ainda minha visão - ela reclamou.
Ele colocou a mão no interruptor e a cozinha ficou clara, quebrando qualquer encanto que pudesse ter havido entre eles.
- Vou checar o boiler.
Ele pegou uma maçã da cesta que havia no balcão da pia e desapareceu no sótão, deixando a apreensão de Vane intensificar-se a cada minuto. Uma coisa era repetir para si que eleja havia feito o pior que podia com ela. Outra, era acreditar.
Estava nervosa em como preencher as horas até ir para a cama. Com medo de ficar a observá-lo ou ele talvez acabasse interpretando a confusão de seus pensamentos à maneira que lhe conviesse.
Porque ela não sabia mais se era a mesma mulher desafiadora de dois dias atrás, que lutara não apenas contra a posse dele, mas também contra a traição de seus sentidos, e alcançara uma certa vitória.
Mas agora, em 24 horas, ele se colocara no centro da atenção dela de todas as maneiras possíveis. E não apenas sexualmente. De algum jeito estranho, ela estava começando a aceitar sua presença, a se acostumar a tê-lo por perto. Houvera momentos durante o jantar em que, embora com relutância, sentira prazer com a companhia dele.
- Por que você está olhando para o nada, cara! A voz dele a assustou.
Ela virou-se.
- Só estava pensando em deixar a louça para amanhã - ela disse evasivamente. - Eu estou me sentindo terrivelmente cansada.
- Davvero? -A expressão de Zac era de sarcasmo.
- Então, logo depois de tomarmos um café, vamos para a cama, mia bella.
Vane mordeu o lábio.
- Não, não foi isso que eu quis dizer.
- Não - ele disse. - Isso, pelo menos, é a verdade.- Ele fez uma pausa. - Está na hora de conversarmos um pouco, Vanessa. Espere por mim perto da lareira.
Foi uma ordem, não um pedido. Quando ele chegou com o café, não tomou seu lugar habitual, mas sim ao lado dela.
- Não quero café, obrigada - ela rejeitou. Houve um longo silêncio, depois ele disse:
- Vanessa, olhe para mim, cara mia.
- Temos mesmo necessidade de conversar? - Ela virou o rosto.
- Acho que sim. - Ele hesitou. - Caríssima, seria o primeiro a admitir que nosso casamento começou mal. E eu me culpo por isso.
- Que bom.
- Nossa vida juntos começou errada desde aquelas primeiras noites e dias há três anos. - As mãos dele fecharam-se nas dela.. - Mas isso pode mudar, facilmente - ele continuou. - Por favor, acredite.
- Acredito - ela disse, imóvel. - Mas somente se você me conceder o divórcio.
- Mas há outra alternativa. Talvez possamos encontrar alguma felicidade juntos. - Os dedos dele acariciavam as linhas do rosto dela.
Ele acrescentou, suavemente:
- Podíamos tentar.
Ela pensou, desesperadamente: Meu Deus, o que está acontecendo comigo? E como posso parar, agora, antes que seja tarde demais?
Ele colocou o braço em volta do ombro dela, aproximando-a.
- Não lute mais, Vanessa. Vamos nos amar esta noite.
Houve um silêncio. Ela sentiu que ele estava tenso. O braço em volta do ombro dela era uma barra de ferro. E, antes que pudesse protestar, ele estava levantando-a do sofá e levando-a para o chão, ajoelhando sobre ela, desfazendo-lhe o nó da calça e tirando-a junto com a calcinha. Depois abriu o próprio zíper.
- O que você está fazendo?
- Você prefere fechar seu coração e sua mente para mim, signora. Então é isso que você deve esperar.
- Oh, Deus!
Ele a penetrou com uma força implacável.
Ela ficou deitada sob ele, atordoada, tremendo enquanto ele seguia sozinho em direção ao êxtase.
Quando terminou, ficou imóvel por um tempo, depois se levantou e colocou as roupas com uma indiferença assustadora.
Queria estar zangada, queria xingá-lo. Queria fazer alguma coisa que fosse puni-lo eternamente pelo seu comportamento vergonhoso. Mas nenhuma palavra lhe veio à mente.
Sentia-se como se estivesse à beira de algum abismo. Estava triste. Acima de tudo, triste.
Sentiu necessidade de pronunciar o nome dele. Mas não teve chance. Porque Zac falou primeiro.
- E agora saia da minha frente, perfavore. - Ele não olhou para ela. - Você disse que queria dormir. Bene. Vá para a cama. Não vai ser incomodada.
Vane correu para o quarto. O coração batia forte, e o corpo estava faminto.
Ele quisera seduzi-la e ela não permitira. Objetivo alcançado.
Mas a que custo?
Você prefere fechar seu coração e sua mente para mim... As palavras dele voltavam para assombrá-la. É isso que você deve esperar...
Isso seria verdade? Se fosse, como poderia agüentar?
Não podia ser assim que ele tratava as outras mulheres da vida dele.
O tempo que ela levou para escutá-lo subir as escadas pareceu uma eternidade. E ela ficou esperando o momento em que a porta do quarto se abriria. Mas Vane escutou um barulho muito diferente: o barulho da porta do outro quarto se fechando.
E percebeu, chocada, que aquela noite dormiria inteiramente sozinha.
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